Pelé, o Corinthians e a Ponte

Messi ou Maradona? Neymar ou Cristiano Ronaldo? São essas as perguntas que rondam a cabeça de pelo menos duas gerações: a dos jovens torcedores (que, coitados, mal sabem o que é assistir a um clássico em que a arquibancada fica repleta com bandeiras dos dois times. E todos voltam vivos para casa, depois, qualquer que seja o resultado); e a turma que, nesse momento, passou a barreira dos 30 e caminha firme rumo aos 40 anos. E, por isso – e apenas por isso – os cinquentões (como eu) hão de vos perdoar – porque vós insistem em achar que Maradona foi melhor que Pelé. E que Messi é melhor que Maradona. E que Neymar e Cristiano Ronaldo são melhores que…

A discussão fica mais apimentada justamente nesta semana que antecede a primeira partida decisiva deste Paulistão/17.

Pois descontem os mais de mil gols de Pelé (foram exatos 1.284); noves fora o drible – sem a bola – sobre o uruguaio Mazurkiewicz, na semifinal da Copa/1970; esqueçam a cabeçada certeira que Gordon Banks ousou espalmar (na segunda rodada da mesma Copa; a Inglaterra era a então campeã mundial); deixem prá lá a tentativa de surpreender um goleiro do meio do campo (de novo o calendário marcava 1970, e até hoje todos podem conferir, pelo youtube, as imagens de Victor, da então Tchecoslováquia, correndo como um pobre palerma… Correndo e torcendo para que a bola passasse por cima do travessão – o que, afinal, acabou acontecendo).

Tudo bem. Esqueçam estes lances que aconteceram em apenas 14 dias. Ou, melhor: lembrem-se que estes três momentos que ficaram para a história do futebol se passaram em apenas 14 dias (de 3 de junho, data da estreia brasileira contra os tchecos, até 17/6, quando o Brasil bateu os uruguaios por 3 a 1 e garantiu presença na decisão. A partida diante dos ingleses foi em 7/6).

Uma genialidade a cada, vá lá, cinco dias, deveria ser mais que suficiente para que Pelé não fosse esquecido neste dito ‘país do futebol’. Ou que, pelo menos, o mantivesse na condição de ‘Rei’, sem qualquer questionamento, dúvida ou piadinha sem graça…

Entre nós, mortais, quem jamais se esquece – e sempre haverá de reconhecer a soberania de Pelé – são os corintianos. Afinal, o Timão foi a maior vítima de Sua Majestade. É aqui que essa história ganha molho – e Pelé e o Corinthians sempre caminharão juntos, numa história que bem poderia ter inspirado Miltom Hatoum em seu ‘Dois Irmãos’ – porque feita de sangue, amor e ódio, e recheada de brigas, cusparadas, traições e provocações. E golaços daquele homem que, mesmo jogando na lama, teimava em deixar o campo com o seu uniforme inteiramente branco.

O Corinthians havia sido campeão do 4º Centenário – título que marcou as comemorações dos 400 anos de São Paulo, em 1954 – e cuja decisão, contra o Palmeiras, aconteceu em fevereiro de 1955.

Pois enquanto o Corinthians ainda comemorava o 4º Centenário e o calendário avançava, 1956 chegou. Em 7 de setembro daquele ano, o menino Édson estreou pelo Santos – contra um tal Corinthians de Santo André. Claro que foi logo marcando.

Pelé chegou e, ainda aos 15 anos (completaria 16 alguns dias depois, já que é nascido em outubro), foi logo dando o toque de classe para o time.

Toque de classe que se transformava quando o adversário era o Corinthians – e o Rei marcou 50 vezes contra o rival, em 33 confrontos disputados ao longo de quase duas décadas. Os anos foram se passando – e o Rei marcando. E o Corinthians se enfileirando. Era impossível ganhar do time que tinha aquele camisa 10.

O Santos conquistou o Paulistão 10 vezes entre 1956 e 1973!

O Corinthians, já com Rivellino, continuava amargando seu jejum. Pelé se despediu da Vila Belmiro justamente num jogo contra a Ponte Preta, em 1974. O jejum alvinegro continuou.

Ele estendeu sua Monarquia aos Estados Unidos onde, vestiu a camisa 10 do New York Cosmos. Por aqui, o Corinthians seguia na seca. Em 1º de outubro de 1977, o adeus definitivo: Pelé fazia a sua partida de despedida dos tempos de futebol.

No dia seguinte (2 de outubro), o Corinthians (com gols de Geraldão e Romeu, salvo engano meu), venceria o São Paulo e garantiria a sua vaga na decisão contra a Ponte. Em 13 de outubro, Basílio marcou aos 37 do segundo tempo e o resto é história.

Enquanto Pelé esteve em campo, o Corinthians jamais foi campeão.