Trinta e cinco anos atrás, o 5 de julho foi numa segunda-feira. É importante lembrar disso, porque a turma jovem precisa entender que nós, o Brasil inteiro, passou um final de semana em que não se falava de outra coisa: Brasil e Itália.

Na sexta-feira anterior, 2 de julho, a seleção havia passado como um trator pela Argentina. Pela Argentina, ressalto – a então campeã e que vinha reforçada, em relação ao time de quatro anos antes, pela presença de Ramón Dias. E de Maradona.

A Argentina havia perdido por 2 a 1 da Itália, no jogo que abriu o grupo. Precisava vencer ou voltava pra casa.

E por isso, se mandou ao ataque. Kempes arrancou pela esquerda, cruzou para a entrada da área, Olguin (acho) apareceu de surpresa e mandou de testa no cantinho. Os gringos começaram a gritar gol, mas Waldir fez um milagre.

O time de Telê foi se soltando em campo e, quando fez 1 a 0, começou a mostrar o mesmo toque de bola que havia marcado a primeira fase.

Quando um irritado Maradona foi expulso, lá pelos 30 do segundo tempo, depois de acertar Batista no meio, ficou evidente o porquê: ele havia ficado preso na marcação em que Cerezzo, Falcão e Sócrates se revezaram o tempo todo. Quando conseguia chegar perto da área, bom, aí era com Oscar…

Foi um passeio. Um passeio em plena sexta-feira – e todos os botecos do país ficaram lotados desde as 11h da manhã (hora do início da partida, salvo engano meu) até tarde da noite.

Pensem no cenário de carnaval em julho, pensem que ficamos, sei lá quantos milhões, o sábado e o domingo falando, respirando e pensando na partida contra a Itália.

Itália que, contra a Argentina, conseguira finalmente a sua primeira vitória naquele Mundial. Paolo Rossi marcou duas vezes – começava a por as manguinhas de fora, assim como todo o time, que fizera míseros dois gols em três partidas na fase de classificação.
Na segunda-feira, eu precisava chegar mais cedo no trabalho. O combinado era chegar as 7h para sair as 10h30. O jogo seria as 11h da manhã, pelo horário brasileiro.

Eu trabalhava numa indústria gráfica, cujo escritório ficava na esquina da alameda Lorena com rua da Consolação, em São Paulo. Combinei de pegar uma carona com o dono da banca onde comprava o Jornal da Tarde todos os dias.

Entrei no fusquinha do Ciro e ele dobrou à esquerda, para descer a avenida Rebouças em direção ao Butantã, onde ambos morávamos. Cada um de nós tinha uma bandeira de plástico verde-amarelo segura do lado de fora das janelas. Andamos 10 metros, o trânsito parou.

Dezenas de pessoas saíam dos carros em plena Rebouças, motores ligados, agitando bandeiras e conversando como se todos fossem velhos conhecidos.

Pedi pro Ciro ligar o radinho do Fusca, ele não sabia o quê sintonizar, “põe na Jovem Pan”, gritei, já impaciente.

Os minutos passavam e o trânsito ia escorrendo lentamente. O jogo começou e José Silvério narrou o primeiro gol de Rossi, em cabeçada aparando cruzamento de Graziani (acho que foi isso).

Nos carros ao lado, algumas bandeiras deixaram de ser chacoalhadas e vi expressões de ‘o que que tá acontecendo, porra?’ ganharem o ar.

Ciro continuou engatando primeira e segunda, rodando devagar, descendo a Rebouças quase em ponto morto, enquanto Silvério descrevia o chute seco, rasteiro, que Sócrates desferiu entre Zoff e o pé da trave, empatando o jogo.

Tudo tinha voltado ao normal, pensamos. ‘Menos essa merda de trânsito que não anda’, resmunguei. Paolo Rossi marcou pela segunda vez, cortando um passe lateral mal dado por Cerezzo – e eu continuava no fusquinha do Ciro.

Quando, afinal, cheguei em casa, dei um beijo no meu pai, Milton, e na minha mãe, Nilce, o ‘Velho’ me olhou com um jeito que fiquei preocupado. “Não sei não….”, me disse Miltão.

Nos meus 18 anos (era a minha idade naquele dia), eu preferi acreditar que era só ele caçoando ou querendo brincar. Fiquei puto, respondi um ‘vamos virar’ e fui pegar o meu rádio pra continuar ouvindo a Jovem Pan. Quando liguei, Orlando Duarte dizia que era preciso acertar a marcação – mas ele próprio também se mostrava confiante na vitória. Ou num empate, que era o que a seleção precisava para avançar.

Quando Falcão recebeu um passe da direita, foi trazendo a bola para a entrada da área, enquanto Sócrates ‘arrastava’ Scirea para um lado e abria um buraco na defesa italiana,
Silvério disse que “Falcão vai bater, é gol!” Nem ele conseguiu descrever o lance por completo.

O Brasil passou a dominar a partida pela primeira vez – até Rossi marcar de novo e tudo virar um amontoado em campo em busca de um gol salvador. Que não veio.

O israelense Abraham Klein (um árbitro ruim, mas que tinha muitas, digamos, ‘ligações’ com a Fifa, e sempre apitava jogos importantes) apitou que tinha acabado. Atrás do gol onde estava Dino Zoff, a torcida italiana fazia uma festa como poucas vezes eu vi.

Naquela noite de segunda, a edição do Jornal Nacional acabou com uma imagem que jamais esqueci: depois de se desculpar com os brasileiros pela derrota (ele era o capitão do time) Sócrates, sem camisa mas com as duas chuteiras amarradas e penduradas no pescoço, virou de costas e começou a descer pela alameda da concentração, uma rua de paralelepípedos e arbustos dos dois lados. O cinegrafista permaneceu mostrando o Magrão descendo a rua em direção ao alojamento. Foi a única vez, nestas décadas todas de estádios, em que chorei por causa de uma derrota.

A Itália ganhou força e foi até a final, quando meteu 3 a 1 na Alemanha e se sagrou tri.