Waldir Peres era, na essência, um sujeito ‘boa-praça’. Se, dentro de campo, era chato a
ponto de fazer os adversários perderem as estribeiras e mandarem para fora cobranças
de pênaltis em sequência (foi assim que o São Paulo faturou o seu primeiro título de
campeão brasileiro, contra o Atlético-MG), enquanto a bola não rolava ele era divertido,
contador de causos e sempre com um sorriso.

Também era de falar manso. Quando comecei a frequentar Pacaembu ou Morumbi, no
comecinho de 1978, Waldir defendia o Tricolor – e sempre protagonizou jogos eletrizantes
contra o meu Corinthians. Era técnico, tinha excelente colocação mas, o que mais me
marcou, em Waldir, era o seu temperamento de jamais desistir. Continuou treinando firme
mesmo no dia em que o técnico Rubens Minelli chegou para ele e disse que, a partir de
então, haveria um revezamento no gol, entre ele e Toinho – que havia sido contratado
porque o próprio Waldir vinha sendo convocado com frequência para a seleção brasileira.

Eram os idos de 1978.

Pois Waldir seguiu treinando e ralando para reconquistar a posição de titular – sem
reclamação ou cara feia, e tendo no (teoricamente rival) Toinho o seu parceiro de quarto
na concentração. Foi para a sua segunda Copa do Mundo (Argentina/78) como um dos
reservas de Leão. Que era intocável, jogava muito e ainda usava a braçadeira de capitão
do time, que alternava com Rivelino.

Waldir voltou da Argentina ‘campeão moral’ (foi assim que o técnico brasileiro, Cláudio
Coutinho, batizou a campanha do time na época, após ficar em terceiro lugar sem
nenhuma derrota) e seguiu ralando no São Paulo.

A vida dele (e de muita gente) começou a mudar no dia em que se extinguiu a CBD
(Confederação Brasileira de Desportos, então presidida por um almirante de pijamas, o
vascaíno-até-dizer-chega Heleno Nunes) e o Governo Federal anunciou a fundação da
Confederação Brasileira de Futebol. Com a CBF, nasceu uma teoria nova: a da ‘seleção
permanente’ – cujo comando foi passado, pelo novo presidente, Giulite Coutinho, para um
homem que estava revolucionando o futebol nacional a bordo do Palmeiras: Telê
Santana.

Se, para o Palmeiras, foi uma pena não ter faturado nenhum título (no Campeonato
Brasileiro, foi eliminado pelo Inter de Falcão – o Inter seria o campeão invicto naquele
ano, 1979), para a seleção brasileira foi a dose de oxigenação que todos queriam e
pediam.

O turrão Telê foi logo chegando e pondo ordem na casa: chamou Falcão (que havia ficado
de fora da Copa), deu um fim às carioquices de Paulo César Caju, Gil e Rodrigues Neto –
a quem substituiu por Éder, Paulo Isidoro e Júnior – e jogou para o alto a camisa 9: se
Reinaldo conseguisse se sustentar sobre os joelhos baleados de tanta porrada e
cirurgias, seria dele. Se não, Careca vinha voando, pedindo passagem e estamos
conversados.

Telê logo arrumou o meio-campo, com Sócrates, Falcão, Cerezzo, Zico… e ainda havia
todo o vigor de Batista. E foi construindo a defesa com o que havia de melhor – e era uma
defesa de técnica pura – e mais a segurança de Oscar. Leandro, Luizinho (que o técnico
conhecia muito bem de Minas) e Júnior completavam o setor.

O problema é que o intransigente Telê olhava para o gol e tinha urticárias. “Leão, nem
pensar…” resmungava para quem quisesse ouvir – de saco cheio da máscara, da soberba
e das confusões que o camisa 1 titular de duas Copas (e reserva em 70) havia arrumado
no Palmeiras e no Vasco da Gama. Além disso, como se sabe, Telê não queria alguém
com a personalidade forte de um goleiro que tinha o nome do rei da floresta.

Carlos (então na Ponte Preta) era um candidato natural – e vinha bem, até que, no
Mundialito de 1981, disputado em Montevidéu, em comemoração que o Uruguai armou
para festejar os 50 anos do primeiro título mundial, jogou a primeira partida, contra a Argentina. Mas não impressionou. Telê escalou João Leite para enfrentar a Alemanha – e
ele mal apareceu. Na final contra o Uruguai, João Leite parecia tremer em campo – nunca
mais foi chamado, enquanto Carlos também perdeu muitos pontos com o Chefe.

Sem nem pensar em dar a camisa 1 a Leão, Telê olhou para o outro lado e viu Waldir
Peres atuando com segurança pelo São Paulo. Ao mesmo tempo, Paulo Sérgio também
se destacava no Botafogo.

Mascando um palitinho no canto da boca, Telê convocou Waldir, o chamou para uma conversa e viu que ele estava motivado. “Estou esperando minha hora chegar desde 74”, disse-lhe Waldir Peres de Arruda. “Nunca desisti e nunca deixei de trabalhar pensando na seleção”, garantiu o já carequinha Waldir. Telê gostava disso.

Waldir era convocado e fazia a parte dele. Mas começou a ganhar a confiança de Telê em
uma excursão à Europa, naquele mesmo ano de 1981. Todos se lembram da partida
contra a Alemanha, em Stuttgart, vencida pelo Brasil por 2 a 1 – em que Waldir defendeu
o mesmo pênalti, cobrado duas vezes por Paul Breitner. Mas poucos têm na memória a
partida fantástica que Waldir Peres fez cerca de 10 dias antes, em Wembley.

Pela primeira vez na história, uma seleção da América do Sul ousou bater a Inglaterra no
Templo do futebol. O time jogou como nunca, Zico fez um golaço de meio-voleio,
aparando um cruzamento à meia-altura vindo da direita, de Edevaldo (lateral do
Fluminense). Mas Waldir Peres só não fez chover naquela noite em Londres: pegou tudo,
chutes de Wilkins, cruzamentos fechados de Barnes (um ponta que era um azougue),
cabeçada de White – está tudo aí, até hoje lindamente registrado e à disposição no
youtube.

Telê olhava para Moracy Santana (seu auxiliar) e para Valdir Joaquim de Moraes (o
treinador de goleiros), ao lado dele, no banco. Todos eram um sorriso só.
Waldir fechou o gol contra os ingleses e, de presente, ganhou um descanso. Telê relaxou,
já tinha encontrado o seu goleiro titular – e escalou Paulo Sérgio para enfrentar a França,
no amistoso seguinte – em que o Brasil marcou 3 a 1, com Sócrates fazendo um gol
depois de meter um lençol no goleiro). Waldir voltaria para o jogo que encerraria a
excursão, contra a Alemanha.

Um jogo tenso, as duas seleções se lançando ao ataque. Mas o Brasil, melhor, vencia por
2 a 1. Até que, lá pelos 35 do segundo tempo, Rummenigge foi à linha de fundo e cruzou,
Luizinho estava com as mãos para o alto, o árbitro marcou pênalti.

Breitner bateu no canto direito de Waldir – que pegou. O árbitro (salvo engano, um inglês)
mandou que a cobrança fosse batida de novo. Waldir seguia confiante, enquanto todos os
brasileiros faziam pressão e não deixavam que a nova cobrança fosse feita. Quando
Breitner correu para a bola, trocou de canto – mas Waldir também havia trocado.
Espalmou para escanteio.

Telê tornou a sorrir, mascando o seu palitinho de fósforo. Waldir voltou a dar show no
amistoso ‘da volta’ marcado para março de 1982, no Maracanã, vencido novamente pelo
Brasil (com um gol de Júnior). Ele fez uma ponte tão fantástica que a foto seria utilizada,
dias mais tarde, para um anúncio da Topper (então, a fornecedora do material esportivo
da seleção brasileira).

No lance, Rummenigge chutou da esquerda, a bola toca no calcanhar (meio sem querer) do grandalhão Hrubresch, vai no ângulo. Waldir salta e dá um tapinha para escanteio.

Nem quando Waldir Peres sofreu um frangaço, na estreia da Copa do Mundo da Espanha
(o soviético Bal chutou da intermediária, nosso goleiro foi tão confiante em encaixar que a
bola escapuliu e entrou), Telê teve dúvidas de que havia escolhido o melhor camisa 1 em
atividade no país.

Quando Waldir Peres foi contratado pelo Corinthians, em 1986, meus amigos corintianos
torceram o nariz. “Esse frangueiro, não!”, diziam. Waldir sempre teve de conviver com
aquele frango contra a União Soviética – era o carma dele, assim como Barbosa havia
tido com Giggia, em 1950.

Pois Waldir sempre defendeu o Corinthians com, para dizer o mínimo, um
profissionalismo como poucas vezes eu vi. O que mais me marcou, na passagem de
Waldir Peres pelo time, foi uma declaração que ele deu em janeiro de 1987, logo após
uma partida (contra o Colônia, da Alemanha, acho), disputada na Vila Belmiro (também
não tenho certeza do local).

Lembro que era um torneio preparatório de verão, um triangular com Santos, Corinthians
e o Colônia. O Corinthians já havia vencido o Santos, fazia a ‘final’ contra os alemães.
Waldir Peres (que vinha de ser reserva em todo o ano anterior; Carlos era o titular) entrou
e fechou o gol. Ganhou todos os prêmios, os repórteres de rádio não o largavam, ficou
dando entrevistas quase meia hora após acabado o jogo, ainda dentro de campo. “Waldir,
você é reserva, rapaz. Como pode entrar e jogar tanto, num começo de temporada?”,
perguntavam os repórteres de rádio.

“Eu não me importo se sou o reserva ou o titular. Eu treino todos os dias para que, a hora
que for chamado, jogar como se fosse o titular e estar bem e em forma”, respondeu o
carequinha. Assim era Waldir Peres de Arruda. Foi com esta frase que ele ganhou o meu
respeito – ainda mais.

Pela Seleção, Waldir disputou 30 jogos, com 25 vitórias e quatro empates. Só sofreu uma
derrota – quando a defesa brasileira foi vencida por Paolo Rossi três vezes, no Sarriá.