Foto: Sirli Freitas/Chapecoense

Vagner Mancini é (e provavelmente sempre será) o maior ídolo da história do Paulista. Capitão do acesso no Paulistão e campeão brasileiro da Série C como jogador, o até então já inesquecível Mancini se transformou numa entidade em Jundiaí com o título da Copa do Brasil em seu ano de estreia como treinador.

Mas o “Eterno Capitão do Galo” está escrevendo um capítulo em sua biografia que irá superar o feito único com o Paulista Futebol Clube. Uma história que será mais lembrada no futuro do que a nossa estrela no peito. E acredite: nós estamos felizes por isso.

O trabalho feito na Chapecoense pode credenciar Vágner Mancini como um dos técnicos mais importantes da história do futebol brasileiro. Mesmo sem dirigir a seleção, mesmo sem ganhar uma Libertadores, Mancini está se colocando num patamar de herói nacional.

Assumir a Chapecoense em janeiro era mais do que um desafio profissional. Era um trabalho psicológico que envolvia uma série de fatores. O primeiro – e mais óbvio – era lidar com uma cidade enlutada. Chapecó se orgulha do time que a representa (lição que deveríamos aprender) e sentiu a tragédia estraçalhar um sonho. A estrela no peito é a recordação de quem deu a vida para colocar o nome de um município de porte médio na final da Copa Sul-Americana.

Mas o que seria a partir dali? A Chape havia perdido seus heróis e seus principais dirigentes.

A comoção mundial foi imediata. Os grandes clubes ofereceram uma vaga de café com leite no Brasileirão, permitindo que o clube permanecesse na elite independente de seus resultados. Levir Culpi se dispôs a trabalhar de graça, Riquelme cogitou voltar aos gramados, assim como Ronaldinho Gaúcho.

Como lidar com tanta caridade? Sabendo que por mais que sejam ofertas de bom coração, uma hora a bola começaria a rolar e a competitividade falaria mais alto.

A nova diretoria da Chapecoense manteve a mentalidade que levou o clube à estabilidade financeira e esportiva, culminando nos resultados dentro de campo: os pés no chão.

Nos últimos anos o time de Chapecó construiu equipes competitivas apostando em talentos que precisavam se recolocar no mercado brasileiro. Cléber Santana, Ananias, Caio Júnior. Nomes que passaram por grandes equipes, tinham potencial para permanecer entre os gigantes, mas não encontravam mais tantas portas abertas. É o caso de Vagner Mancini.

O inesquecível e inesperado título da Copa do Brasil de 2005 fez o futebol enxergar em Vagner Mancini um treinador capaz de operar milagres. Se com um elenco limitado ele fez tudo aquilo, imagine com uma estrutura de time grande.

Grêmio, Santos, Cruzeiro, Vasco da Gama e Botafogo. Um currículo invejável, mas pouco lembrado pelos torcedores desses equipes – exceção feita ao Santos, onde Mancini lançou um garoto da base chamado Neymar.

Em nenhum desses clubes Mancini conseguiu um título, pois em nenhum deles teve tempo suficiente para trabalhar como merecia.

Mas o treinador não é “artista de um trabalho só”. No Vitória foi bicampeão baiano e subiu para a Série A. No Atlético-PR tirou o clube da zona de rebaixamento para chegar ao G4 e disputar a final da Copa do Brasil em 2013.

Ainda assim o nome de Mancini nunca era citado nas trocas de técnicos dos 12 grandes do Brasil e a história dele sempre acabava voltando ao título com o Paulista em 2005.

Agora o patamar é outro. Vagner Mancini é o treinador que montou uma equipe literalmente do zero. Em quatro meses de trabalho já era campeão estadual (o que não é pouca coisa em Santa Catarina). Um mês depois, a Chapecoense estava classificada para as oitavas da Libertadores da América (dentro de campo eles fizeram a parte deles), foi arrancada da Copa do Brasil por um erro de arbitragem e assumiu a liderança do Brasileirão por duas rodadas (um feito que nunca havia sido alcançado pela Chape).

Mancini sabe que não sustentará essa primeira colocação. Mas é impossível não aplaudir o feito. Escapar sem sustos do rebaixamento já fará da Chapecoense 2017 um dos melhores trabalhos da história do futebol brasileiro. Mas Vagner Mancini tem tanta estrela, que essa Chape está com cara de G6 ou, melhor ainda, um bicampeonato da Sul Americana.

No futuro a biografia de Vagner Mancini provavelmente será escrita a partir dos eventos atuais, trazendo a Copa do Brasil de 2005 como o molde de uma carreira vitoriosa – e não seu ponto mais alto.

E nós, torcedores do Paulista, estamos torcendo para a Chapecoense conseguir se manter como o clube que nós deveríamos ser. E para que Vagner Mancini continue levando um pouco da nossa história no futebol.


Heitor Freddo é jornalista do Time Forte do Esporte da Rádio Difusora Jundiaí e apresenta diariamente o Programa Batendo Bola às 11h15