Foto: Divulgação/Santos FC

Cléber é mais um dos atletas da longa lista de revelações da Década de Ouro do Paulista Futebol Clube. De Jayme Cintra saíram Victor, Réver, Nenê, Márcio Mossoró, Léo, Cristian, Danilo Laranjeira, Thiago e tantos outros que entre 2001 e 2010 fizeram do Galo Jundiaiense a maior força do Interior de São Paulo.

O zagueiro Cléber não é exatamente o mais importante deste time estrelado, mas escreve uma história na carreira que faz sim o torcedor do Paulista lembrar com orgulho quem o revelou para o futebol. Embora quando jogasse em Jundiaí, Cléber não fosse exatamente uma unanimidade. E apresentava deficiências técnicas que foram corrigidas ao longo da carreira.

Mas se Jundiaí torce pelos seus atletas e espera muito que Cléber se transforme no principal zagueiro do Santos pelos próximos anos, o jogador em si deu uma demonstração infeliz de ingratidão nesse final de semana.

Em Santos há uma pressão muito grande para Cléber justificar o preço pago por ele. Zagueiro do Hamburgo na campanha contra o rebaixamento para a segunda divisão da Alemanha, o brasileiro custou ao time da Vila Belmiro R$ 7,3 milhões.

A estreia com a camisa do Santos foi decepcionante. Jogando em casa, o Peixe recebeu a frágil Ferroviária de Araraquara. Cléber foi muito mal, levou cartão vermelho e o Santos perdeu para o time que até então era lanterna do Campeonato Paulista. O torcedor começou ali a desconfiar que o clube havia feito um mal negócio.

Dorival Júnior, técnico que indicou a contratação do zagueiro, barrou Cléber do elenco do Santos. O motivo: uma suposta lesão crônica no joelho que atrapalharia o desempenho em alto nível por uma sequência de partidas.

Cléber sempre negou essa situação e se colocou à disposição do clube. Dorival caiu, Levir Culpi assumiu e o zagueiro continua jogado para escanteio.

No último sábado, dia de jogo do Santos contra a Ponte Preta, o jornal A Tribuna, o principal da Baixada Santista, fez uma entrevista exclusiva com o zagueiro que vestiu as duas camisas que se enfrentariam no Pacaembu.

A primeira pergunta não poderia ser outra: “Você chegou com status de titular e não sai do banco. Muito se comenta que um problema no joelho atrapalha seu rendimento. O que há em seu joelho?”. A resposta de Cléber apontou o dedo para Jayme Cintra.

“Em 2010, no Paulista de Jundiaí, fiz cirurgia de ligamento cruzado anterior, que não foi bem tratada, porque não tinha uma estrutura tão boa. Mas meu problema não é joelho. É músculo. Preciso fortalecer, só que se eu ficar muito forte, fico lento. Não posso malhar tanto. Aí, às vezes a dor no joelho agrava por causa do lado muscular. Por isso faço trabalho físico dentro e fora do clube”.

Cléber colocou toda a responsabilidade de suas deficiências físicas no departamento médico do Paulista, que sempre foi uma unanimidade dentro do clube – mesmo nos momentos de crise.

Mas quando aponta Jundiaí como a causa de seus males musculares, Cléber vai além. Indiretamente ele também chama de incompetentes todos os departamentos médicos dos clubes por onde passou depois: Ponte Preta, Hamburgo e o Corinthians, que é uma referência em medicina esportiva no mundo.

O Departamento Médico do Corinthians, que realizou verdadeiros milagres clínicos como Ronaldo, Alexandre Pato, Adriano e Jadson, deixou passar por tanto tempo um jogador com problemas musculares? Se de fato houvesse um “defeito crônico” em Cléber provocado pelo Paulista, o Corinthians não teria percebido?

A declaração de Cléber vai mais além: desmente o próprio jogador que sempre disse a Dorival Júnior que não havia problema algum em seu condicionamento físico. O técnico saiu, ele continua no banco e aí é preciso criar uma nova justificativa.

Cléber errou feio na declaração. É melhor assumir que vive um momento ruim. Dizer que está se readaptando à loucura do calendário brasileiro, ou qualquer outro clichê. Mas dividir a responsabilidade de sua deficiência técnica com o clube do qual saiu há 7 anos chega a ser covardia. Ainda mais para um jogador que, definitivamente, não vale 7 milhões de reais.

Cléber só deu essa declaração porque o Paulista vive um momento ruim e o zagueiro ainda está com status de jogador de time grande. Mas o mundo dá muitas voltas.


Heitor Freddo é jornalista do Time Forte do Esporte da Rádio Difusora Jundiaí e apresenta diariamente o Programa Batendo Bola às 11h15