Em meio a tantas notícias ruins que se acumulam em Jayme Cintra, ao menos um alento ainda mantém viva uma chama de esperança para o futuro: a evolução inacreditável do time Sub-15 do Paulista.

A equipe de 2017 é o maior resultado que Moisés Nunes já apresentou nessa polêmica e pouco harmoniosa parceria pelo trabalho de base. E não se trata apenas dos placares alcançados, das comemorações de vitórias. A marca dessa equipe é o amadurecimento de adolescentes que tinham dificuldades fundamentais no esporte e hoje encaram qualquer adversário.

O Campeonato Paulista Sub-15 começou no dia 8 de abril dando um susto no torcedor. O Galinho estreou em casa, no Centro Esportivo Francisco Dal Santo, perdendo por 9×0 para o Red Bull. A impressão que ficou naquele dia era que o Paulista havia se transformado em uma escolinha de futebol e não um dos clubes mais tradicionais em revelar atletas. Talvez aquele time realmente precisasse de aulas básicas ao invés de uma linguagem mais adulta sobre futebol.

Veio a segunda rodada e o Paulista sofre uma nova derrota elástica, dessa vez por 3×0 para o desconhecido Brasílis de Águas de Lindóia. Mas a história estaria prestes a mudar. E isso só foi possível porque o clube (ou sua terceirização) tem um profissional absolutamente diferenciado no mercado: Valter Lopes.

Estamos falando de um verdadeiro professor de futebol. Um treinador que sempre foi elogiado por quem com ele conviveu, mas nunca teve a valorização que merece. Quando ainda trabalhava com as crianças do Sub 11 e 13, Valter articulou sozinho um período de treinamentos e jogos em Portugal. Houve muita resistência a essa iniciativa, sem se valorizar o ganho que aqueles meninos teriam ao entrarem em contato com outra cultura e outro jeito de jogar futebol.

Valter Lopes se expôs ao ter que assumir o time Sub-20 do Paulista na Copa São Paulo após a saída repentina de Umberto Louzer. Com um goleiro sem condições de um desafio daquele tamanho e um time completamente desentrosado, o adversário inicial era nada menos que o São Paulo na Arena Barueri, com transmissão de tv para todo o Brasil.

Agora Valter Lopes trabalha sem pressão e sem nenhuma expectativa de resultado imediato. Mas o futuro já apareceu. O time Sub-15 que se encaminhava para ser o saco de pancadas do grupo 5 está muito perto de se colocar na briga pela classificação para a fase final do Campeonato Paulista.

O time que estreou tomando 9 depende apenas de si em dois confrontos diretos para terminar a primeira fase em quarto lugar. O regulamento prevê que os três primeiros colocados dos 9 grupos se classificam automaticamente. Para completar um total de 32 times, os 5 melhores quartos colocados também avançam. Hoje a pontuação do grupo do Galo não está entre as melhores e pode ser que mesmo em quarto lugar, o Galinho não avance.

Mas pense o que significa para um menino de 15 anos que voltou para casa na estreia sofrendo 9×0 e, por uma situação normal na idade, imaginou que seus sonhos estivessem destruídos, e na 10ª rodada se orgulhou de ter aplicado um 8×0 no rival Bragantino. Se adultos, pais de família, já sentem o impacto quando sofrem uma humilhação profissional a ponto de nem sempre se recuperarem, imaginem adolescentes que estão aprendendo o básico da bola.

Quantos times profissionais teriam a capacidade de reverter um cenário tão desfavorável? Pois isso é o trabalho de base. A formação de um menino passa também pelo resultado em campo, mas o principal é trabalhar com a formação humana. E esses meninos do Sub 15 do Paulista terão uma ótima história para contar, independente de quem vai se tornar profissional na bola e quem vai seguir outra carreira.

Mas histórias desse tamanho não podem ficar restritas à lembrança dos meninos. É preciso que o clube entenda a sua grandeza e valorize quem tornou possível um verdadeiro milagre juvenil.


Heitor Freddo é jornalista do Time Forte do Esporte da Rádio Difusora Jundiaí e apresenta diariamente o Programa Batendo Bola às 11h15