“Eu não acredito que o Cássio foi tomar dois gols justo hoje. O Corinthians tinha que massacrar o Atlético-PR. Pelo menos o Jô marcou duas vezes para salvar minha noite”.

O desabafo seria absolutamente normal para um torcedor corintiano que sabe que a vitória era esperada, mas não entende que o empate mantém uma incrível invencibilidade. Mas não é o caso. Acredite: a frase de tom alvinegro foi dita por um torcedor são paulino.

Não se trata de uma clássica virada de casaca, nem de um daltonismo tamanho a ponto de se confundir as camisas. A explicação tem outro nome: Cartola FC.

O fantasy game da Rede Globo criou uma geração de espectadores do futebol sem a essência básica do esporte, a rivalidade.

Para quem não está acostumado com o jogo, trata-se de uma brincadeira de ser Tite por um dia. Você monta seu time, baseando-se nas suas crenças para a rodada de quem terá sucesso.

A pontuação é dada de acordo com um critério mais matemático do que esportivo (gols, chutes na trave, faltas recebidas valem pontuações positivas, enquanto cartões amarelos, passes errados e faltas cometidas negativam a marca do atleta).

A intenção clara da Rede Globo, detentora exclusiva dos direitos de transmissão do torneio, era criar interesse em toda uma rodada para um público que se restringia a assistir seu time e, no máximo, secar seu rival.

Por que um flamenguista assistiria o jogo entre Coritiba x Avaí? Porque seu time no Cartola tem 3 atletas em campo.

Mas a brincadeira foi além desse lado publicitário. Com seu rival tendo mais sucesso do que seu time, é comum vermos ‘cartoleiros’ escalarem jogadores que, normalmente, seriam secados por ele.

Alguns chegam ao cúmulo de escalar atletas que vão enfrentar o próprio time do coração, torcendo fervorosamente para que ele marque um gol que prejudicará o próprio clube (“mas vai ser bom para o meu Cartola”).

O jogo criado pela Globo é divertido e saudável. O abandono das origens do futebol, não. Um torcedor desapegado ao seu time deixa de consumir sua marca, de frequentar estádio, de acompanhar o dia a dia.

Um torcedor que vibra com o gol do rival está matando todo o charme do esporte.

Acredite: os 8 pontos do atacante não são nada comparados ao prazer de tirar um sarro do seu amigo que torce para outro time.


Heitor Freddo é jornalista do Time Forte do Esporte da Rádio Difusora Jundiaí e apresenta diariamente o Programa Batendo Bola às 11h15