O Internacional está escrevendo um capítulo que merece ser estudado no futuro como uma lição ao futebol brasileiro: como um grande não deve se comportar em um rebaixamento.

A Série B é o maior dos temores dos 12 grandes clubes do Brasil. Fora os gigantes, todos os outros clubes (em menor ou maior proporção) são acostumados a conviver com o fantasma da queda. Muitas vezes, o único objetivo de uma temporada é a permanência, e o simples fato de escapar com algumas rodadas de antecedência já é algo louvável – casos recentes de Chapecoense e Ponte Preta.

Quando um clube grande cai, a ordem se inverte completamente. É o estranho no ninho, que ao mesmo tempo é disparado o pássaro mais capacitado para se recuperar e voltar a voar.

Mas o Internacional se apegou a teorias, tratadas em Porto Alegre como verdades absolutas, que colocam hoje o Colorado como um enorme mico do futebol brasileiro.

O primeiro erro foi se apegar, ainda na Série A do ano passado, ao discurso provocativo da arquibancada de que “clube grande não cai”. Eu tenho a nítida sensação de que a diretoria realmente acreditou que invocando esse mantra a pesada camisa colorada jogaria sozinha e somaria os pontos necessários.

Uma vez consumada a queda, veio a tentativa de retrocesso. O Inter se apegou ao tapetão para virar a mesa, lembrando casos emblemáticos como o do rival Grêmio nos anos 90. “Se o tricolor conseguiu, o colorado também conseguiria”.

Mas o futebol mudou e ter um time grande como protagonista da Série B hoje é mais lucrativo para a CBF e para a detentora dos direitos de transmissão do que ter os 12 gigantes na Série A, sendo que pelo menos quatro são meros coadjuvantes.

Só que nada disso se compara ao maior dos erros do Internacional nessa temporada: não entender o que é uma Série B.

A segunda divisão nacional, com a redução da elite para 20 clubes, se tornou extremamente forte e equilibrada. Clubes tradicionais como Guarani, Santa Cruz, Goiás, Juventude e América-MG se misturam com emergentes em busca de protagonismo, como Londrina, Boa Esporte, Oeste e Luverdense.

A diretoria colorada acreditou que montar um “time de Série A” faria a disputa na Série B se tornar uma grande moleza.

D’Alessandro, Nico López, Danilo Fernandes, Carlinhos, Uendel, Edenilson. Parece absurdo pensar assim, mas não se joga Série B com elenco desses. Jogadores badalados, acostumados a grandes competições, não são os ideais para jogar a segunda divisão.

Desde a segunda rodada quando empatou em casa com o ABC (porque a estreia com goleada por 3×0 contra o Londrina foi uma grande enganação), o Inter não encontra um padrão de jogo. Tenta se colocar como o gigante num campeonato de formigas operárias. Tenta se comportar como Golias num campeonato de Davis.

O Inter só vai se firmar no G4 quando aceitar de verdade que corre riscos de não subir (como não assumiu o perigo da queda). As vitorias só vão aparecer quando o futebol em campo for dentro do padrão do campeonato. Ou alguém acha que o Vila Nova apresenta um espetáculo ao torcedor?

Todos os grandes que caíram montaram times de jogadores de segunda divisão. Atletas que entendem o campeonato e sabem que jogar com a camisa de um grande é seu ponto mais alto da carreira. O Palmeiras veio buscar Fábio Gomes e o Corinthians contratou o Cristian. Ao invés disso, o Internacional repatriou essa semana Leandro Damião.

Nunca um grande correu tanto risco de ficar na Série B (nem o Vasco na última passagem). E na Série A de 2017 tem outro grande que parece não olhar o roteiro escrito pelo seu co-irmão Colorado.


Heitor Freddo é jornalista do Time Forte do Esporte da Rádio Difusora Jundiaí e apresenta diariamente o Programa Batendo Bola às 11h15