Morri em vida

Ivan Gottardo

Morri em vida

9 de abril de 2017, o dia mais triste da história do Paulista. Não esperava viver ele.

Não esperava que esse dia chegasse. Nunca!

Hoje me sinto morto, sem chão, é uma ferida que vai demorar para cicatrizar.

Nasci em 1984, ano do acesso, ano de Ricardo artilheiro.

A primeira vez que me lembro de ter ido no campo do Paulista foi em 1993, 4 a 1 contra o Velo Clube.

Possivelmente eu tenha ido em algum jogo antes, mas minha memória infantil não me deixa lembrar com exatidão. Esse eu tenho certeza.

Tinha um jogador chamado César, que uma “senhorinha” insistia em gritar o nome dele, não sei por que, mas aquilo me marcou.

Anos depois, com minha frequência no Jayme Cintra, descobri que aquela “senhorinha” sempre com radinho no ouvido era a Dona Letícia, esposa do Sr. Emílio Trevisan, que é o jogador mais velho vivo da história do Paulista.

A partir daquele foram vários outros jogos, 24 anos até agora e quase 400 que eu estive lá pelas minhas contas.

As primeiras alegrias foram justamente numa Série A3.

Edu Lima foi meu primeiro ídolo, jogava, batia faltas e escanteios como ninguém, fazia gols e dava assistências para Toni Baiano. Uma dupla que pra mim batia Bebeto e Romário. E ainda tinha o Toninho Cerezo para encher o estádio e desfilar sua elegância.

Em 1997 fui parar na Nove de Julho com o Galinho. Nem sabíamos, mas ali nascia um ídolo comandando nosso time, como poucos fizeram até hoje.

2001 foi só alegria. Ganhamos tudo! Até na entrega das faixas…

Depois, Rio-São Paulo, finalista do Paulistão e campeão da Copa do Brasil!

Jogamos Libertadores. Vencemos e entortamos o River Plate!

Vi novos ídolos surgirem.

Artur, Rafael Bracali, Victor, Lucas, Julinho, Fábio Vidal, Dema, Anderson, Réver, Thiago Martinelli, Danilo, Fábio Gomes, Cristian, Alex Oliveira, Marcinho, Nenê, Izaías, Jean Carlos, Mossoró, Léo e. pra mim o maior de todos, Vagner Mancini.

Quase chegamos à Série A…

“Quase”, “se”… Palavras que fazem muita diferença no futebol…

Mas em vez de aprender e crescer, paramos no tempo, continuamos vivendo daquela coisa ultrapassada do abnegado que está lá porque quer ajudar, porque diz que ama.

Mas de 1993 pra cá, o mundo mudou muito. O futebol mudou. Tornou-se definitivamente profissional.

Amor e boa vontade eu também tenho, mas não me arrisco ser dirigente, não estudei, não sou competente pra isso. Hoje, precisa ser.

E do quase acesso à elite, paramos hoje na última divisão existente no futebol brasileiro. Não tem mais pra onde cair, é o fundo do poço! Literalmente.

Sei que tem muitas pessoas mais velhas que viveram tristezas e alegrias muito mais do que eu com o Paulista.

Mas agora é unânime, é o maior vexame da nossa história de quase 108 anos.

Assim como em 1978/79 teve um dirigente que tinha um nome na cidade e nunca mais conseguiu coisa nenhuma, os que estão lá hoje também serão lembrados eternamente de forma negativa. A soberba que carregaram até agora cobrará o seu preço.

Jogamos fora em 10 anos o que demoramos quase 100 para construir.

Que comecemos de novo, mas desta vez com gente capaz e competente.


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