Há 21 anos, Romilda e Denise criavam o Peama

Peama

Há 21 anos, Romilda e Denise criavam o Peama

1989. Romilda Roncoletta chega ao clube São João com as três filhas para a aula de natação. As mais novas – Luciana e Adriana – não demoram e partem para a piscina com uma professora, enquanto Ana Paula fica com a mãe, em outra piscina um pouco mais rasa, aprendendo movimentos. Inquieta, a professora observa mãe e filha dentro da água, até que resolve ajudar passando exercícios para a menina.

“Ela ia de uma borda para a outra. Nunca me esqueço. É a maior lembrança que tenho dela naquela época”, diz Romilda.

A professora de natação do clube era Denise Silva Neves.

Juntas, Romilda e Denise são as idealizadoras do Peama (Programa de Esportes e Atividades Motoras Adaptadas), que completa neste 15 de março, oficialmente, 21 anos de trabalho junto à Prefeitura de Jundiaí.

Se nas águas do clube na Ponte São João o caminho das duas se cruzou pela primeira vez, o segundo encontro demorou a acontecer.

Nascida em Santos, em 1958, Romilda gostava de esportes desde criança – praticava tênis e fazia natação até nas águas do mar.

Em 1978, passou no vestibular e se mudou para Campinas, mas a vida virou do avesso no ano seguinte – a primeira filha, Ana Paula, estava a caminho.

Receosa, largou o curso de Fisioterapia na PUC Campinas, se casou e veio morar em Jundiaí. “Antes da Ana Paula, eu nunca tinha olhado para o deficiente”, confessa Romilda. A filha, hoje com 37 anos, nunca teve um diagnóstico preciso. Não fala e têm dificuldades locomotoras.

Denise, por outro lado, nunca foi “do esporte”. Trabalhou em banco, foi secretária em rádio, fez magistério na adolescência, mas não queria esse futuro para sua vida.

“Nunca me identifiquei sendo professora escolar. E não tínhamos muitas opções à época. Eu sempre brinco que não sabia o que queria, mas sabia muito bem o que não queria”, afirma.

Fugindo das salas de aula, começou a cursar Educação Física na ESEF e se apaixonou pela natação – foi professora no Grêmio CP, na academia Acqua Center e no Clube São João.

Romilda levou Ana Paula à Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Jundiaí desde o seu nascimento. Um dia, porém, a entidade avisou que não poderia mais atender Ana Paula. O mundo de Romilda caiu. E até hoje ela se emociona ao se lembrar da conversa: “Comecei a chorar. Não sabia mais o que fazer”.

1992: o ano chave

As necessidades da filha Ana Paula fizeram Romilda pensar em uma melhor inserção do deficiente físico na sociedade. “Não sentia tanto um preconceito, mas com certeza o desconhecimento das pessoas em relação a eles”, explica.

Ela, então, voltou a estudar e também se matriculou em Educação Física. Fez estágio de tênis com a professora Thereza Leitão e começou a trabalhar na Prefeitura de Jundiaí como auxiliar.

Nesse mesmo ano, no caminho de um casamento no interior de Minas Gerais, Denise sofreu um grave acidente de carro. “Me trouxeram até Jundiaí em uma caminhonete”, conta. A professora quebrou o fêmur das duas pernas e ficou de cama por quase um ano. Só pode voltar ao batente dois anos após o ocorrido.

1995 – Reencontro, caronas e o Peama

Recuperada do susto, Denise começou a dar aula de natação a uma criança com distrofia muscular e resolveu se aprofundar na questão. Se matriculou na especialização de Educação Física Adaptada, na Unicamp. “Não escolhi. Fui escolhida”, enaltece.

No primeiro dia de aula, a surpresa: encontrou uma Romilda recém-formada e com o objetivo de ajudar na inclusão do deficiente na sociedade. A vida colocava uma no caminho da outra mais uma vez.

Romilda e Denise tornaram-se amigas. Entre as idas e vindas de Jundiaí para Campinas, debatiam sobre o esporte, educação física, os deficientes. Trocavam ideias com professores. Até que um deles – José Dias de Gavião Almeida – propôs a criação de um projeto paralelo ao curso. Surgia ali o esboço do que, um ano depois, se tornaria efetivamente o Peama.

“Tivemos a função de mostrar para a sociedade que o deficiente existia e podia sim fazer as coisas normais do dia a dia”, ressalta Romida, assentida pela amiga, companheira de vida e trabalho, que comemora: “Fui impulsionada a fazer a diferença na vida das pessoas”.

2017 – Hoje, sonhos e o futuro

Em todos esses 21 anos, Romida, Denise e o Peama já passaram por diversas dificuldades. “O mais difícil é perder alunos para a vida”, admite Denise.

Em 2017, o Peama ganhou espaço e já é referência para diversos projetos de inclusão que acontecem na região. Itupeva e Vinhedo, através de suas respectivas prefeituras, além de Campo Limpo Paulista, Jarinu e Limeira. Também foi tema central de Trabalhos de Conclusão de Curso em algumas áreas.

“Meu sonho é que o Peama seja necessário apenas para pessoas que não consigam realmente a inclusão na sociedade”, revela Romilda. Denise garante: “Não é o deficiente que tem dificuldade. É a cidade que precisa se adaptar a eles. Esse é meu maior sonho. Que a pessoa com deficiência seja tratada como qualquer outra”.


1 Comentário
Subir